segunda-feira, 4 de junho de 2007

Milagre do povo

Não havia nem pretos nem brancos sobre o palco
Somente três Alminhas

Sob os claros e escuros em que as luzes os envolviam.
Aproveitando afetos e a festa

Em que santos e orixás os envolviam.

E soprava um vento nordeste com tons de lirismo lusitano
Que acabara de cortar mares com destino de caravela
E soprava uma brisa oeste nascida nas sombras de baobás.

Brisa que a fazer ainda mais convincente o rodar da saia da baiana
Se identificava com todas as tonalidades dos Brasis.

E tudo ocorria ali, nos andaimes da alta cidade

Eram audíveis os gritos das tais Alminhas:
“— Não importa quão tarde seja, hoje devemos brincar!”
Uma pra outra e essa pra duas.

E nós ali a olharmos com olhar aquecido e jubiloso
Ao redor da folia-fogueira
E nós ali a nos banharmos na lavanda das águas de Iemanjá
E nós ali a ouvirmos, em sintonia fina, harmonia, melodia e ritmo
Como sonidos de aço da lâmina de São Jorge
Rompendo a carapaça maldosa do dragão.

E tudo ocorria ali, nas escadas da alta cidade

Assim se construía mais um milagre do povo!

Não um milagre aprovado em consistórios
Ou outra coisa digna de Vaticano
Mas provado pelo cada-eu-espectador
Pelo nós-platéia que admirava as três Alminhas
Rodopiando naquela ciranda desejada e que
Em cada peito ali revolvia uma alegria em quase sismo

E ali estivemos, vimos e ouvimos como vítimas de encantamento.
Acertados como alvo fácil, tombados logo.
Não derrotados, mas fiéis novos companheiros das três Alminhas


Conquistados, nós a vossa mercê
Ou algo assim:
Em língua de enxadrista,
Xeque-mate!
Em língua de gaulês,
Touché!