sábado, 12 de maio de 2012



Não passo horas burilando palavras
Elas não tem tempo de olhar para mim.
Que dirá contar-me algum de seus segredos
Então, ou elas despencam, aparecem, materializam-se ou nada feito.
Eu nada posso contra essa resistência dos vocábulos que me cercam.
Deveriam sair como bolhas de sabão, mas não, não SAEM
Saem regurgitadas, esboço amarelecido e não lido, esquecido
Pelas horas, pelos olhos. Nas areias de um sem-fim.

Não tem HD, memória RAM ou outro afã qualquer que adie o fluxo verbal
Há ou não há

Ah!
Ave!
Salve!
Viva vida!
Viva a vida!
Que é o presente...
Que é um cais de gente...
E guarda um caos permanente...
Que é o segredo do enredo do mistério...
Que é o sopro e é o pulso e é o assombro...
Que um novelo cheio de pontos, cheio de nós...
Viva a vida elástica que se expande até não querer mais
E vai... Parte para baixo da terra, parte para junto Deus

A UM POETA

Ele é poeta?
Abra as janelas pra ele.
Saia na janela e veja-o dançar, na sua solidão diuturna e remanescente.
Dê ouvidos as suas reminiscências.
Observe-o nem que seja enquanto tu escovas os dentes.

Nem peço para que ofereças café ou uma cachacinha em final de tarde perpendicular,
Nem uma piscadela eu ando a te pedir para o poeta.
Quem sabe um olhar de soslaio, reprimido mesmo
Um sorriso minguado e fugidio
Mas que não seja mentiroso,
Ainda que oculte verdades

Dê ao poeta, quem sabe
Uma sístole ou meia diástole do seu dia programático
Uma cena da sua novela preferida
O suor do seu copo de cerveja, que seja, que seja.
Uma página rasgada da revista Veja
Ou seja: o poeta quer migalhas sim.
O poeta quer uns trocados sim,
Aceita pão amanhecido
Agradece o sapato velho de número menor
Se encanta com a roupa surrada e sem botões

A velha história do incontível?
E a história do incabível?
O que cabe dentro da lata?
As raspas de leite condensado que o poeta lambe

O poeta se delicia com o caroço da azeitona