sexta-feira, 25 de abril de 2014

... mas só muda quem lança olhar generoso para o outro.
Olhar capaz de superar o universo do umbigo e
vê na diferença não uma ameaça, mas antes um desafio, uma possibilidade

de rearranjar e reinaugurar alguns aspectos de si mesmo
E isso, talvez, se reflita e se encerre na inteligência e na capacidade de amar...

DEDO DE PROSA

Não não
Não há nada de especial por aqui
Aqui são só desabafos, coisas sem importância.
Embaraço de linha em fim de carretel
Grão de soja que cai no caminho
Desperdício de vento frio no inferno
Moeda de um centavo em bolso de terno roto

Não há aqui nenhuma poesia,
Nem há pretensão de que algo aqui
Seja tomado como a mínima tentativa de lirismo.
Quem sabe um gesto, um ensaio, uma brincadeira
Balanço à sombra em tarde de verão
Um esboço, um rascunho de mim pra mim mesmo.

Pois não quero — não tenho asas —
Ter a incumbência de 'tamburilar' linguagem em
Frases repletas de arestas, saliências, torções
Retorções, curvas, intersecções, vãos e vias
Palavras côncavas, idéias convexas
Construindo casa com laje e alicerce tudo no lugar

luta de bom pedreiro

Por aqui, tudo deve permanecer revirado

imprecisa mão-de -obra barata

De maneira que seja só ficar aqui soltando palavras
Do jeito que quero e enquanto quero
Como quem vai destelhando a própria casa

E lançando as telhas pra vê-las em cacos no chão
Sem se preocupar com o sereno de hoje e nem com a chuva de amanhã

Eu quero estar aqui como quem está no prejuízo
Devendo pra amigo.
Porque aqui só há coisinhas pra amigo
Daqueles bem chegados e tolerantes
Talvez mais ainda pros delirantes
Tortos em fim de noite

Ninguém deverá delinear, portanto,
sentido literário para a minha conversa
Aqui há papinho, dedinho de prosa ensimesmado
Enmimmesmado
Porque aqui é mais fala pelos cotovelos
novelos sem fim de fala
Sala de visitas pra língua de comadre

e fim.

Enfim,
Finjo-me ser certamente, mas não sou poeta.
É claro que nem precisaria dizer
Mas como sempre há desavisados,
Digo:

De palavras, Poeta é operário.
Eu, traficante.

Segredo


O passado anda me mostrando
suas unhas e dentes afiados
Roça as paredes a aguçá-los


e me olha com olhar enviesado
Ronda pelas minhas cercanias


(ontem mesmo eu o vejo)
e quer me fazer estragos.

Eu penso: - Infeliz!
e penso novamente: - Infeliz!
Mas finjo calma.

A mim, que só andei a lhe cuidar do bem?
Tentasse uma outra porta,
não desta minha casa, pois
nem pelos fundos, ao dar a volta,
encontraria livre vão ou fresta se quer.


Eu juro, juro

Não se trata de Futuro
fico só, só com meu mundinho pequenino de menino,
minha verbezinha rala, minha média unidade
opacilenta e silenciosa. Ociosa de tanta vontade nula

Fico só. Com meu presente incompletamente só meu

Mantenho-me com um amigo só (que só a outro tem),
da casa de madeira azul que bem conhece
Mantenho-me com alguns trocados e meu café comigo
Recolho-me sem pressa, feito mais um,


em mais um de meus surrados recolhimentos cotidianos,
aos meus cacos tão nada-novos.
Recolho-me aos fins de tarde sem livro

Que recolha então aquelas unhas,
Que recolha aquele olhar oblíquo,


Que recolha a sanha e não me mal trate,
Que trate de cerrar os lábios de batom vermelho