terça-feira, 29 de maio de 2007

Recado para Helena

Querida Helena,

Não ando bradando verdade pelos quatro ventos
Ao contrário, são coisas inventadas o que digo por aqui
Até sem carinho às vezes
Às vezes não, às vezes sim com certo desleixo inclusive

Pense em crianças brincando:
Polícia e ladrão, pique-esconde
Coisas inventadas pra passar o tempo
Melhor, pra viver a vida
Melhor, pra sentir a vida
Melhor, pra experimentá-la
Diversão!
Folia!
Pintar o sete!
É isso.

Verdade verdade mesmo não. Ou outro tipo dela.
Às vezes, como nas criações infantis, Helena
O dono da pena deixa-se ver um pouco
É um risco
Igual ao menino como menino, menino entidade
Quando machuca a perna correndo da polícia que inventava
Você sabe que acordos de fantasias começam cedo, não é?
Sei que entende isso, Helena

Assim, eu sempre soarei falso nesse grotão
Minha língua contará mais e mais ilusões
Em palavras trans-pirando inverdades

próximas do absurdo se você for ver

Bem, conte sempre com as minhas fabulações

Mas fique atenta com as miragens, querida Helena
Um beijo

Ah, diz pra Júnia me esperar no Solano à noite.




Algesia

Produzidas em série nos encombros do meu desvão
Angústia e tristeza resolveram invadir a minha casa
Nada de palmas, nada de campainha anunciativa
Romperam cerca, pularam muro, vazaram grades

E não houve disco ou filme capaz de me livrar
Nem houve incenso de alfazema, perfume de mulher
Banho, novela, poema — em soneto ou verso livre —
Café na caneca, bolinho de chuva, e-mails com flerte
Sem flerte, nem flor, nem beijo nem beija-flor
nem o barulhinho do envelope de alumínio do analgésico
nem o barulhinho efervescente do remédio na água doce
Nada foi capaz de me livrar

Tudo aqui ainda era um peito comprimido

Em larga escala produzidas nos porões da casa arruinada
Tristeza e angústia se revezavam em sentinela
A evitar fuga inflamada, a infligir corte de profundeza secular
Da largura do mar e em sentido contrário

E não houve chuva ou vento capaz de me livrar
Nem fruta no pé, massagem no pé ou pé-de-moleque
Janela, sabiá, sanhaçuíra, bolha de espumante
Cheiro de amante, nem dom Quixote nem Rocinante
Artista de cinema, Docinho de festa, passeio na praça
Nem cravo em fuga bachiana
Nem o trompete escaldante de Miles Davis

Nada tinha dom de livramento

Aqui tudo ainda era um peito abatido

Busco então em pleno desespero
uma alegria rítmica
num arremedo de samba
pruma folia descalça
pra contentar o eu-passista
numa avenida de graça

busco um ungüento, busco até um benzimento
uma pílula dentro do vencimento
drágea na validade
que sanasse logo o peito comprimido
que sarasse logo o peito combalido
que me desse fôlego, que me fosse ar

Que me deixasse respirar contentamentos