Produzidas em série nos encombros do meu desvão
Angústia e tristeza resolveram invadir a minha casa
Nada de palmas, nada de campainha anunciativa
Romperam cerca, pularam muro, vazaram grades
E não houve disco ou filme capaz de me livrar
Nem houve incenso de alfazema, perfume de mulher
Banho, novela, poema — em soneto ou verso livre —
Café na caneca, bolinho de chuva, e-mails com flerte
Sem flerte, nem flor, nem beijo nem beija-flor
nem o barulhinho do envelope de alumínio do analgésico
nem o barulhinho efervescente do remédio na água doce
Nada foi capaz de me livrar
Tudo aqui ainda era um peito comprimido
Em larga escala produzidas nos porões da casa arruinada
Tristeza e angústia se revezavam em sentinela
A evitar fuga inflamada, a infligir corte de profundeza secular
Da largura do mar e em sentido contrário
E não houve chuva ou vento capaz de me livrar
Nem fruta no pé, massagem no pé ou pé-de-moleque
Janela, sabiá, sanhaçuíra, bolha de espumante
Cheiro de amante, nem dom Quixote nem Rocinante
Artista de cinema, Docinho de festa, passeio na praça
Nem cravo em fuga bachiana
Nem o trompete escaldante de Miles Davis
Nada tinha dom de livramento
Aqui tudo ainda era um peito abatido
Busco então em pleno desespero
uma alegria rítmica
num arremedo de samba
pruma folia descalça
pra contentar o eu-passista
numa avenida de graça
busco um ungüento, busco até um benzimento
uma pílula dentro do vencimento
drágea na validade
que sanasse logo o peito comprimido
que sarasse logo o peito combalido
que me desse fôlego, que me fosse ar
Que me deixasse respirar contentamentos
terça-feira, 29 de maio de 2007
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