Sol da tarde que me invade e me invalida
Por que minha vida é tão obscura e paciente
Em tão hora de acontecimento?
Seria o mormaço?
Ou estes versos incontemporâneos tão fora de lugar?
Por que porra-do-caralho-tomar-no-cu assim me faço mais compreensível?
Malditas sejam as merdas dessas gavetas!
Eu vou me perdendo assim em antiguidades mesmo
Vou até as brejeirices românticas e sertanejas se for preciso
Ah, quem dera decorar sertões! Quem dera!
Estou cansado de pingüins de geladeira
Roupinhas customizadas e piercing
dores de grife
Queria um pouco de ardência bruta
Queria mais folha de papel e caneta
Olho no olho, tête-à-tête, tato a tato, desvario!
Não quero ficar aqui a dar de ombros
Olhando a merda toda boiando e eu sorrindo
Como se só me restasse essa opção:
olhar a merda toda boiando e eu sorrindo
Mas também se eu quiser falar de alaúde, se me iludir a lira?
“Heróis morreram de overdose”?
Meus ex-amigos estão no poder?
Pros que veneram pingüins na geladeira
Deve ainda existir alguma verdade: A do foda-se
Roubo-lhes essa verdade
E as putas? Como estão nas ruas! Nuas sem-teto e luz vermelha!
Desamparadas, as flores!
Eis aqui um egoísta.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Cà e Lá
Eu não sou equilibrado.
Meu brado retumba e silencia no mesmo instante
Não tenho constância
Eu sou de estância e de quintal
De frevo e frivolidades
Acho que é pela carne em meus ossos
E esse bocado de ferida abrindo e fechando
Abrindo e fechando
Entra ano e sai ano
Entra ano ensaiando
Entra ano e sai: ando
Quase tic nervoso que não se repete igual
Dodecafonia que quer-se dominar em canção
Eu tremo ao trem passar
relaxo em qualquer chuva de setembro
Sou capaz, por vezes, de caminhar pelo fio do varal
E por outras, capaz de não parar em pé sobre o chinelo
Sou, como do ano, os meses: uns trinta, outros trinta e um
E às vezes nem isso...
Sempre vario. Às vezes desvario mesmo
Às vezes tremo, cismo
De repente, parcimônia
Outras tantas apenas durmo
Sou inconstante e o às vezes pra mim é verbo e que transita direto
Vivo mais o instante no mesmo instante em que
pareço em tempo longe demasiado, quase infinito
Conto história quando mal sequer existo.
Acho que acredito no efêmero,
Transitório, crisálida.
Mais por insensatez
Do que por zen-budismos todavia.
Eu tenho medo da morte
Mudemos de assunto...
Nem sempre eu estou pelo avesso
Variando.
Nem sempre são vezes desse contrário
Às vezes eu contrario
Meu brado retumba e silencia no mesmo instante
Não tenho constância
Eu sou de estância e de quintal
De frevo e frivolidades
Acho que é pela carne em meus ossos
E esse bocado de ferida abrindo e fechando
Abrindo e fechando
Entra ano e sai ano
Entra ano ensaiando
Entra ano e sai: ando
Quase tic nervoso que não se repete igual
Dodecafonia que quer-se dominar em canção
Eu tremo ao trem passar
relaxo em qualquer chuva de setembro
Sou capaz, por vezes, de caminhar pelo fio do varal
E por outras, capaz de não parar em pé sobre o chinelo
Sou, como do ano, os meses: uns trinta, outros trinta e um
E às vezes nem isso...
Sempre vario. Às vezes desvario mesmo
Às vezes tremo, cismo
De repente, parcimônia
Outras tantas apenas durmo
Sou inconstante e o às vezes pra mim é verbo e que transita direto
Vivo mais o instante no mesmo instante em que
pareço em tempo longe demasiado, quase infinito
Conto história quando mal sequer existo.
Acho que acredito no efêmero,
Transitório, crisálida.
Mais por insensatez
Do que por zen-budismos todavia.
Eu tenho medo da morte
Mudemos de assunto...
Nem sempre eu estou pelo avesso
Variando.
Nem sempre são vezes desse contrário
Às vezes eu contrario
domingo, 10 de junho de 2007
Sonidos Portenhos
De vez em quando gosto de me despir de brasilidades
Gosto de me sentir só, cidadão de lugar nenhum
Ou mais que isso, que é apenas ser um sentidor
Só pra depois, já vazio, poder me ligar a outras terras
Outros mitos de nação que se vão além em sons e aromas.
Ato sinestésico que arremata e arrebanha pátria alheia
In substâncias incognitivamente arbitrárias
Me encantam lindezas de terras longínquas, ultramarinas.
Querer-me estar assim como em desertos paquistaneses
Desenvolto num canto mujahedin
Respirar quiçá Kinshasa
resplandecer-me de um sol enfático
e tatuar-me na pele uma cor andaluzia
luz e dia de uma ascendência arábica
E de noite, aflorar-me mais dessa península
em olores de lírios líricos e flores-de-lis lisboetas,
jardins suspensos em minha alma
onde Pessoa navega em vela camoniana
Eu, em meu coração, cultivo ibérias
É de meu feitio querer ser sem dúvida em sombra
um expatriado
em exílio nômade, de circunstância,
de brincadeira em brincadeira,
onde não há mais sentido de degredo
Querer arder Américas, Oropas e Áfricas
Ziguezaguear-me por ultramendoados olhares cotidianos de Ásias
meus olhos filmando ocasos germânicos
meus lábios povoando o gosto sazonado de Luanda
Mas há uma terra especialmente em que me fervo em pensamento
nas horas de passeio clandestino
Essa, de nome pátrio feminino, feminina
Argentina!
Não sei se é pelo nome essa atração que me completa
vestida em carnalidade
Não sei se é pela cor que a anima, branco pousado de anilina
Argentina!
Se eu fosse dela filho, haveriamos de haver num palco incestuoso
Irrevogável folia de amantes
(É minha sina ser e estar por vezes deslocado do meu ninho
Querer ser e estar em tudo nesse mundo
como se fosse e estivesse, caetaneanamente,
órfão de pátria e mátria
Onipresentemente viramundo)
Mas sobremaneira quero agora colher Argentina
Plantada em outonos borgeanos
Respirá-la, sorvê-la até em demasia
Como se não houvesse um outro dia,
Como se na manhã seguinte não houvesse o vôo da crisálida.
Anseio quedarme na infinitude portenha do tango singrando a noite
para ser corsário debelado em seu imenso mar del plata
Qual vínculo não sei,
que proximidade. Não sei qual ponte une
tal homem oxidável a tal senhora de prata
Quem sabe este azul a emprestar linhas às folhas brancas dos meus cadernos
Margeados por um rosa intruso que deveria ser amarelo solar
De un sol onde vibro por todas as Madres de Plaza de Mayo
sol de maio em azul-celeste
Argentina!
fibra de toro sem dele pedir sacrifício: Espanha remida
Não deixo lugar nenhum morrer à mingua, que dirá meus Brasis:
“— fala Mangueira!”
Mas não esqueço Buenos Aires,
Onde com Júlio brinquei de amarelinha,
E o beijo daquela mulher.
Hoje eu os quero de novo,
Eu não os perco de vista
Desde que me chegaram num cicatrizante sonido de bandoneón
Gosto de me sentir só, cidadão de lugar nenhum
Ou mais que isso, que é apenas ser um sentidor
Só pra depois, já vazio, poder me ligar a outras terras
Outros mitos de nação que se vão além em sons e aromas.
Ato sinestésico que arremata e arrebanha pátria alheia
In substâncias incognitivamente arbitrárias
Me encantam lindezas de terras longínquas, ultramarinas.
Querer-me estar assim como em desertos paquistaneses
Desenvolto num canto mujahedin
Respirar quiçá Kinshasa
resplandecer-me de um sol enfático
e tatuar-me na pele uma cor andaluzia
luz e dia de uma ascendência arábica
E de noite, aflorar-me mais dessa península
em olores de lírios líricos e flores-de-lis lisboetas,
jardins suspensos em minha alma
onde Pessoa navega em vela camoniana
Eu, em meu coração, cultivo ibérias
É de meu feitio querer ser sem dúvida em sombra
um expatriado
em exílio nômade, de circunstância,
de brincadeira em brincadeira,
onde não há mais sentido de degredo
Querer arder Américas, Oropas e Áfricas
Ziguezaguear-me por ultramendoados olhares cotidianos de Ásias
meus olhos filmando ocasos germânicos
meus lábios povoando o gosto sazonado de Luanda
Mas há uma terra especialmente em que me fervo em pensamento
nas horas de passeio clandestino
Essa, de nome pátrio feminino, feminina
Argentina!
Não sei se é pelo nome essa atração que me completa
vestida em carnalidade
Não sei se é pela cor que a anima, branco pousado de anilina
Argentina!
Se eu fosse dela filho, haveriamos de haver num palco incestuoso
Irrevogável folia de amantes
(É minha sina ser e estar por vezes deslocado do meu ninho
Querer ser e estar em tudo nesse mundo
como se fosse e estivesse, caetaneanamente,
órfão de pátria e mátria
Onipresentemente viramundo)
Mas sobremaneira quero agora colher Argentina
Plantada em outonos borgeanos
Respirá-la, sorvê-la até em demasia
Como se não houvesse um outro dia,
Como se na manhã seguinte não houvesse o vôo da crisálida.
Anseio quedarme na infinitude portenha do tango singrando a noite
para ser corsário debelado em seu imenso mar del plata
Qual vínculo não sei,
que proximidade. Não sei qual ponte une
tal homem oxidável a tal senhora de prata
Quem sabe este azul a emprestar linhas às folhas brancas dos meus cadernos
Margeados por um rosa intruso que deveria ser amarelo solar
De un sol onde vibro por todas as Madres de Plaza de Mayo
sol de maio em azul-celeste
Argentina!
fibra de toro sem dele pedir sacrifício: Espanha remida
Não deixo lugar nenhum morrer à mingua, que dirá meus Brasis:
“— fala Mangueira!”
Mas não esqueço Buenos Aires,
Onde com Júlio brinquei de amarelinha,
E o beijo daquela mulher.
Hoje eu os quero de novo,
Eu não os perco de vista
Desde que me chegaram num cicatrizante sonido de bandoneón
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Para lavras de poema
Tenho chorado demais
Ando vertendo lágrimas sobre lágrimas
Riachinho de amargura que se rebela em
Vazante confusa sem leito para descanso
Onda para um lado, onda para o outro
Afundo embarcações e me refaço com dilúvios
Represa em desmantelo que irrompe aos berros
Um silêncio então já escasso.
E o tempo odioso se esqueceu de caminhar
Tenho sorrisos de menos, menos deleites tenho vivido
Ando a tirar leite de pedra e as pedras se riem de mim
Por eu ser feito de matéria mal amalgamada
Mal amada, armada em musgo de dureza inválida
Mi pálida sonrisa camina una calle perdida
Enquanto eu caminho uma outra sem aresta
Que só existe em meus sonhos não lembrados
E não me leva além do aquário
Eu choro mesmo água de aquário
Vaso ruim que se quebra em miudezas irreconstituidas
E espalha o choro que carregava.
Líquido que agora desliza em finíssima camada horizontal,
Caminha em todas as direções e borra de sentimento a calçada empoeirada
Uma pena de plantão há em meu costado direito
Eu sinto um dó de tocaia por sobre meu ombro esquerdo
Ais, com punhais e adagas seguem de prontidão em meu peito
A rechaçar riso desavisado
A me impor choro com gosto e de soro caseiro
E as horas diabólicas em coma
Mas me resigno, dou o braço a esta minha companheira,
Minha Era de momento
Ofereço-lhe minha casa, dou a ela minha camisa,
Sirvo-lhe comida e minha cama para que repouse
Porque sei que se a tenho perto e me faz sofrimento
Me dá de presente essas dores de que posso falar
E ainda que se demore ao meu lado
por mais que as horas emperrem,
E que o tempo reflita horas antes do passo adiante,
Ela partirá
E virá o inverso desse verso em que verso agora
Ando vertendo lágrimas sobre lágrimas
Riachinho de amargura que se rebela em
Vazante confusa sem leito para descanso
Onda para um lado, onda para o outro
Afundo embarcações e me refaço com dilúvios
Represa em desmantelo que irrompe aos berros
Um silêncio então já escasso.
E o tempo odioso se esqueceu de caminhar
Tenho sorrisos de menos, menos deleites tenho vivido
Ando a tirar leite de pedra e as pedras se riem de mim
Por eu ser feito de matéria mal amalgamada
Mal amada, armada em musgo de dureza inválida
Mi pálida sonrisa camina una calle perdida
Enquanto eu caminho uma outra sem aresta
Que só existe em meus sonhos não lembrados
E não me leva além do aquário
Eu choro mesmo água de aquário
Vaso ruim que se quebra em miudezas irreconstituidas
E espalha o choro que carregava.
Líquido que agora desliza em finíssima camada horizontal,
Caminha em todas as direções e borra de sentimento a calçada empoeirada
Uma pena de plantão há em meu costado direito
Eu sinto um dó de tocaia por sobre meu ombro esquerdo
Ais, com punhais e adagas seguem de prontidão em meu peito
A rechaçar riso desavisado
A me impor choro com gosto e de soro caseiro
E as horas diabólicas em coma
Mas me resigno, dou o braço a esta minha companheira,
Minha Era de momento
Ofereço-lhe minha casa, dou a ela minha camisa,
Sirvo-lhe comida e minha cama para que repouse
Porque sei que se a tenho perto e me faz sofrimento
Me dá de presente essas dores de que posso falar
E ainda que se demore ao meu lado
por mais que as horas emperrem,
E que o tempo reflita horas antes do passo adiante,
Ela partirá
E virá o inverso desse verso em que verso agora
Alarde
Eu me retalho
Eu me esquartejo
Eu me descarno
Eu me derramo em soluço
Eu me desato em tragédia
Eu me reviro na tumba
Eu me encaixo na trama
Eu me supero no drama
Eu me abstenho do ato
Eu me espatifo em cacos
Eu me descasco
Eu me descaso
E caso com meu descaso
Comigo mesmo
Eu me entorno gota a gota
Eu me transbordo em tromba d’água
Eu pingo, eu gotejo, eu sereno
Eu mergulho
Eu vou ao fundo
Eu me alago
Eu me afogo
Eu me afago
Eu ando sobre a água
Eu danço sobre o fogo
Atiro facas e domo tigres
Apenas para que saiba que ainda existo
Eu me aceito e me rejeito
Eu me ajeito
Eu me recolho
Eu me esparramo
Esfrego os olhos
Eu durmo tarde
Eu acordo cedo
Eu estou na marca do pênalti
Eu me mantenho na defensiva
Dou nó no peito
Cruzo as pernas
Estico as pernas
Eu spaccato-split-cleft
E me esborracho no chão
Estalo os dedos
Digito a senha
Esqueço a sanha
Levanto a saia
Eu rio à toa
Eu choro a toda hora
Eu jogo na megasena
Eu rodo o pião
Eu rodopio
Eu ligo a tevê
Eu crio um clichê
Eu digo asneira
Planto bananeira
Eu desafio o medo e caminho na corda bamba
Apenas para que atente que ainda vivo
Eu me resguardo
Eu me guardo pra outro tempo
Eu me revogo
Eu me prorrogo
Eu temporizo
Eu me destempero
Eu vou pro segundo tempo
Eu me esconjuro
Eu me revelo
Eu me revejo
Busco uma perspectiva
Eu me enquadro
Eu me desfoco
Eu me flagelo
Eu me torturo
Eu me autorizo
Eu me miniaturizo
E me obrigo a crescer
Eu discurso
Eu renuncio ao meu discurso
E o meu discurso
Eu rivalizo
Relativizo
Eu neutralizo
Eu centralizo e justifico
O meu discurso eu sensualizo
Eu viso um motivo válido
Eu me redimo
Eu me redijo em linhas tortas
Eu tranco as portas e as janelas
Eu caramujo
Eu me espalho em fragmentos
E me contextualizo
Eu me divulgo
Eu me alargo em escala industrial
eu me reduzo em artesanato
Eu engulo facas e faço teatro mambembe
Para que saiba que sem dúvida sou seu
...
Eu me esquartejo
Eu me descarno
Eu me derramo em soluço
Eu me desato em tragédia
Eu me reviro na tumba
Eu me encaixo na trama
Eu me supero no drama
Eu me abstenho do ato
Eu me espatifo em cacos
Eu me descasco
Eu me descaso
E caso com meu descaso
Comigo mesmo
Eu me entorno gota a gota
Eu me transbordo em tromba d’água
Eu pingo, eu gotejo, eu sereno
Eu mergulho
Eu vou ao fundo
Eu me alago
Eu me afogo
Eu me afago
Eu ando sobre a água
Eu danço sobre o fogo
Atiro facas e domo tigres
Apenas para que saiba que ainda existo
Eu me aceito e me rejeito
Eu me ajeito
Eu me recolho
Eu me esparramo
Esfrego os olhos
Eu durmo tarde
Eu acordo cedo
Eu estou na marca do pênalti
Eu me mantenho na defensiva
Dou nó no peito
Cruzo as pernas
Estico as pernas
Eu spaccato-split-cleft
E me esborracho no chão
Estalo os dedos
Digito a senha
Esqueço a sanha
Levanto a saia
Eu rio à toa
Eu choro a toda hora
Eu jogo na megasena
Eu rodo o pião
Eu rodopio
Eu ligo a tevê
Eu crio um clichê
Eu digo asneira
Planto bananeira
Eu desafio o medo e caminho na corda bamba
Apenas para que atente que ainda vivo
Eu me resguardo
Eu me guardo pra outro tempo
Eu me revogo
Eu me prorrogo
Eu temporizo
Eu me destempero
Eu vou pro segundo tempo
Eu me esconjuro
Eu me revelo
Eu me revejo
Busco uma perspectiva
Eu me enquadro
Eu me desfoco
Eu me flagelo
Eu me torturo
Eu me autorizo
Eu me miniaturizo
E me obrigo a crescer
Eu discurso
Eu renuncio ao meu discurso
E o meu discurso
Eu rivalizo
Relativizo
Eu neutralizo
Eu centralizo e justifico
O meu discurso eu sensualizo
Eu viso um motivo válido
Eu me redimo
Eu me redijo em linhas tortas
Eu tranco as portas e as janelas
Eu caramujo
Eu me espalho em fragmentos
E me contextualizo
Eu me divulgo
Eu me alargo em escala industrial
eu me reduzo em artesanato
Eu engulo facas e faço teatro mambembe
Para que saiba que sem dúvida sou seu
...
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Poema sobre Areia
Nada havia sido tão bom assim.
Nem a noite de sexta, nem o passeio em vão
buscando outra solidão em disponibilidade.
De volta, noite declinando, esperança cortada ao meio,
solidão interamente intacta
Intacto, inteiramente solidão.
Olho para a tela que agora é minha lua mais bela,
ouço uma vez mais as palavras de minha dama
Que reconstrói tempo, mundos e fundos
Para que logo se desfaçam em nevoeiros de areia
Assim, ao ouvi-la me inflama um esboço melhor de mim.
Me toma um desejo de ser servil,
De cativar estrelas e domar lobos
Só pra guardá-los nos bolsinhos do casaco
E depois contentar crianças.
De dominar o leve sono que inspira minha dama
Nessa ilusão que me empresta e na qual me iludo por querer.
Ludo querer que vem assim de um saber do sabor do bom.
Afinal eu sei.
E como o pássaro que desejasse o alçapão
Entro aos pontapés na armadilha de sua lusa língua.
Roço na ponta dos pés a sua lisa língua.
E se saio da tela e me abalo em pensamento é que a alma cisma
Que há uma cisma:
Onde estaria a minha dama?
Poeta de palavras tão belas e repletas de insidiosa força de atração.
Atração de força insidiosa de repletas e belas tão palavras de Poeta.
Onde está a Poeta? Onde está? Onde?
Flanando,
Como antigos colegas de ofício?
Nem a noite de sexta, nem o passeio em vão
buscando outra solidão em disponibilidade.
De volta, noite declinando, esperança cortada ao meio,
solidão interamente intacta
Intacto, inteiramente solidão.
Olho para a tela que agora é minha lua mais bela,
ouço uma vez mais as palavras de minha dama
Que reconstrói tempo, mundos e fundos
Para que logo se desfaçam em nevoeiros de areia
Assim, ao ouvi-la me inflama um esboço melhor de mim.
Me toma um desejo de ser servil,
De cativar estrelas e domar lobos
Só pra guardá-los nos bolsinhos do casaco
E depois contentar crianças.
De dominar o leve sono que inspira minha dama
Nessa ilusão que me empresta e na qual me iludo por querer.
Ludo querer que vem assim de um saber do sabor do bom.
Afinal eu sei.
E como o pássaro que desejasse o alçapão
Entro aos pontapés na armadilha de sua lusa língua.
Roço na ponta dos pés a sua lisa língua.
E se saio da tela e me abalo em pensamento é que a alma cisma
Que há uma cisma:
Onde estaria a minha dama?
Poeta de palavras tão belas e repletas de insidiosa força de atração.
Atração de força insidiosa de repletas e belas tão palavras de Poeta.
Onde está a Poeta? Onde está? Onde?
Flanando,
Como antigos colegas de ofício?
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Milagre do povo
Não havia nem pretos nem brancos sobre o palco
Somente três Alminhas
Sob os claros e escuros em que as luzes os envolviam.
Aproveitando afetos e a festa
Em que santos e orixás os envolviam.
E soprava um vento nordeste com tons de lirismo lusitano
Que acabara de cortar mares com destino de caravela
E soprava uma brisa oeste nascida nas sombras de baobás.
Brisa que a fazer ainda mais convincente o rodar da saia da baiana
Se identificava com todas as tonalidades dos Brasis.
E tudo ocorria ali, nos andaimes da alta cidade
Eram audíveis os gritos das tais Alminhas:
“— Não importa quão tarde seja, hoje devemos brincar!”
Uma pra outra e essa pra duas.
E nós ali a olharmos com olhar aquecido e jubiloso
Ao redor da folia-fogueira
E nós ali a nos banharmos na lavanda das águas de Iemanjá
E nós ali a ouvirmos, em sintonia fina, harmonia, melodia e ritmo
Como sonidos de aço da lâmina de São Jorge
Rompendo a carapaça maldosa do dragão.
E tudo ocorria ali, nas escadas da alta cidade
Assim se construía mais um milagre do povo!
Não um milagre aprovado em consistórios
Ou outra coisa digna de Vaticano
Mas provado pelo cada-eu-espectador
Pelo nós-platéia que admirava as três Alminhas
Rodopiando naquela ciranda desejada e que
Em cada peito ali revolvia uma alegria em quase sismo
E ali estivemos, vimos e ouvimos como vítimas de encantamento.
Acertados como alvo fácil, tombados logo.
Não derrotados, mas fiéis novos companheiros das três Alminhas
Conquistados, nós a vossa mercê
Ou algo assim:
Em língua de enxadrista,
Xeque-mate!
Em língua de gaulês,
Touché!
Somente três Alminhas
Sob os claros e escuros em que as luzes os envolviam.
Aproveitando afetos e a festa
Em que santos e orixás os envolviam.
E soprava um vento nordeste com tons de lirismo lusitano
Que acabara de cortar mares com destino de caravela
E soprava uma brisa oeste nascida nas sombras de baobás.
Brisa que a fazer ainda mais convincente o rodar da saia da baiana
Se identificava com todas as tonalidades dos Brasis.
E tudo ocorria ali, nos andaimes da alta cidade
Eram audíveis os gritos das tais Alminhas:
“— Não importa quão tarde seja, hoje devemos brincar!”
Uma pra outra e essa pra duas.
E nós ali a olharmos com olhar aquecido e jubiloso
Ao redor da folia-fogueira
E nós ali a nos banharmos na lavanda das águas de Iemanjá
E nós ali a ouvirmos, em sintonia fina, harmonia, melodia e ritmo
Como sonidos de aço da lâmina de São Jorge
Rompendo a carapaça maldosa do dragão.
E tudo ocorria ali, nas escadas da alta cidade
Assim se construía mais um milagre do povo!
Não um milagre aprovado em consistórios
Ou outra coisa digna de Vaticano
Mas provado pelo cada-eu-espectador
Pelo nós-platéia que admirava as três Alminhas
Rodopiando naquela ciranda desejada e que
Em cada peito ali revolvia uma alegria em quase sismo
E ali estivemos, vimos e ouvimos como vítimas de encantamento.
Acertados como alvo fácil, tombados logo.
Não derrotados, mas fiéis novos companheiros das três Alminhas
Conquistados, nós a vossa mercê
Ou algo assim:
Em língua de enxadrista,
Xeque-mate!
Em língua de gaulês,
Touché!
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Londrina
Dia-a-dia eu me descubro um pouco por tuas ruas cruzadas
Costurando teus vincos de alamedas e avenidas.
Espaços que me trazem tempos, de afetos
Andei, respirei tua calçada aumentativo
Que de tão repleta chego a pensar-me não tão sozinho
Acendi vela e suspirei teu suburbano submundo
Que existe como nunca
e que quase sempre tem me feito esquecer do café
da manhãzinha, da tardezinha,
De outros tempos...
Capital do café... Café!
Será que todos os teus meninos o sorvem
Ou são esquinas e favelas que sorvem os teus meninos?
Desde cedo te vi e ainda não tenho os olhos cansados
Não me canso possivelmente porque és metrópole dentro de viela
E o contrário disso
Gosto dessa tua contradição.
Fere quase sempre, mas também aninha.
Um teu jeito que é cada vez mais meu jeito de ser o teu
Para olhos de filho, sei que és pintura;
Para bocas de filho, sei que és aflição
Contudo, sem nada, ainda te quereria
Em dia de chuva que em dia de trânsito que não flui desaba
Em dia de sol que em dia de trânsito que não anda arde
Teus Kaingangs, ainda que desprezados
Quase gangues traficando orquídeas dentro de balaios
Bosques, lagos, matas... meus afetos
Costurando teus vincos de alamedas e avenidas.
Espaços que me trazem tempos, de afetos
Andei, respirei tua calçada aumentativo
Que de tão repleta chego a pensar-me não tão sozinho
Acendi vela e suspirei teu suburbano submundo
Que existe como nunca
e que quase sempre tem me feito esquecer do café
da manhãzinha, da tardezinha,
De outros tempos...
Capital do café... Café!
Será que todos os teus meninos o sorvem
Ou são esquinas e favelas que sorvem os teus meninos?
Desde cedo te vi e ainda não tenho os olhos cansados
Não me canso possivelmente porque és metrópole dentro de viela
E o contrário disso
Gosto dessa tua contradição.
Fere quase sempre, mas também aninha.
Um teu jeito que é cada vez mais meu jeito de ser o teu
Para olhos de filho, sei que és pintura;
Para bocas de filho, sei que és aflição
Contudo, sem nada, ainda te quereria
Em dia de chuva que em dia de trânsito que não flui desaba
Em dia de sol que em dia de trânsito que não anda arde
Teus Kaingangs, ainda que desprezados
Quase gangues traficando orquídeas dentro de balaios
Bosques, lagos, matas... meus afetos
Terra vermelha...
São os teus meninos que levantam tua poeira vermelha
Em dia de brincadeira
Ou são becos obtusos que pulverizam os teus meninos?
Cidade, eu te vigio porque sei que me espreitas
Eu te crio desde quando tu me crias
Sei que te pertenço tanto quanto te retenho
Amo-te porque transcendes
Teu concreto amado
Afeto devotado a rocha interlocutora
Que assim respira, pulsa e me apaixona
Ah, cidade, tu cravas minha visão
Como um trem de ferro e delicadeza.
Se me ignoras, peço água, peço arrego, peço Arrigo
Ah, cidade, incomoda comigo!
Se tentei desenhar-te num poema
Se tentei na canção te colorir
É porque ao sonhar-te sonhei bem
Dei de cara com tua noite
Que ainda descia tranqüila
Tranqüila
Tranqüila.
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Dedo de prosa 2
Pois muito bem, Poeta!
Antes eu tenha sido mesmo mais mentiroso que traficante
Como disse você.
Só não leve a mal, pois não houve nisso quase nenhuma mesquinhez
Certo, confesso!
Tive pretensões de criar alguns efeitos frasais
Conjecturando fins de noite e gravidez de lua.
Quanto a isso estava certa: fui mentiroso
Entenda, porém, o receio de parecer arrogante e pretensioso.
Um receio mais por auto-defesa do que por migalha de humildade
Também agora isso me faz bem confessar.
Mas veja bem, Poeta
Como eu disse, o que não quero é compromisso
O que deve ter visto — sei da sua perspicácia — é talvez
Um desejo camuflado mas pulsante de ser tomado como
E não de se autodenominar Poeta
E aceito que negar-se com palavras belas — é o que diz —
Soou bastante falso.
Assim, sou fingidor. Também confesso!
Contudo, aceitar que todo poeta é um fingidor
Não me obriga a pensar que todo fingidor é poeta.
Até porque a lógica disso a que me refiro é bem mais refinada
Então, pra acabar com essa discussão improdutiva
Mas que apesar disso anda movimentando toda a cidade,
Dos bares aos jornais, dos consultórios dentários às lojas de
Conveniência,
Está bem, Poeta! Aceito!
Sou arrogante, mesquinho até, traficante de palavras macias
E acima de tudo mentiroso, falso e fingidor
E penso ainda que não sou poeta
mas se alguém vir neste meu palavreado
"alguma possibilidade de estrelas"
Uivo para a lua como um bom poeta
E aceito, sem mais um pio, tal carinho
Antes eu tenha sido mesmo mais mentiroso que traficante
Como disse você.
Só não leve a mal, pois não houve nisso quase nenhuma mesquinhez
Certo, confesso!
Tive pretensões de criar alguns efeitos frasais
Conjecturando fins de noite e gravidez de lua.
Quanto a isso estava certa: fui mentiroso
Entenda, porém, o receio de parecer arrogante e pretensioso.
Um receio mais por auto-defesa do que por migalha de humildade
Também agora isso me faz bem confessar.
Mas veja bem, Poeta
Como eu disse, o que não quero é compromisso
O que deve ter visto — sei da sua perspicácia — é talvez
Um desejo camuflado mas pulsante de ser tomado como
E não de se autodenominar Poeta
E aceito que negar-se com palavras belas — é o que diz —
Soou bastante falso.
Assim, sou fingidor. Também confesso!
Contudo, aceitar que todo poeta é um fingidor
Não me obriga a pensar que todo fingidor é poeta.
Até porque a lógica disso a que me refiro é bem mais refinada
Então, pra acabar com essa discussão improdutiva
Mas que apesar disso anda movimentando toda a cidade,
Dos bares aos jornais, dos consultórios dentários às lojas de
Conveniência,
Está bem, Poeta! Aceito!
Sou arrogante, mesquinho até, traficante de palavras macias
E acima de tudo mentiroso, falso e fingidor
E penso ainda que não sou poeta
mas se alguém vir neste meu palavreado
"alguma possibilidade de estrelas"
Uivo para a lua como um bom poeta
E aceito, sem mais um pio, tal carinho
terça-feira, 29 de maio de 2007
Recado para Helena
Querida Helena,
Não ando bradando verdade pelos quatro ventos
Ao contrário, são coisas inventadas o que digo por aqui
Até sem carinho às vezes
Às vezes não, às vezes sim com certo desleixo inclusive
Pense em crianças brincando:
Polícia e ladrão, pique-esconde
Coisas inventadas pra passar o tempo
Melhor, pra viver a vida
Melhor, pra sentir a vida
Melhor, pra experimentá-la
Diversão!
Folia!
Pintar o sete!
É isso.
Verdade verdade mesmo não. Ou outro tipo dela.
Às vezes, como nas criações infantis, Helena
O dono da pena deixa-se ver um pouco
É um risco
Igual ao menino como menino, menino entidade
Quando machuca a perna correndo da polícia que inventava
Você sabe que acordos de fantasias começam cedo, não é?
Sei que entende isso, Helena
Assim, eu sempre soarei falso nesse grotão
Minha língua contará mais e mais ilusões
Em palavras trans-pirando inverdades
próximas do absurdo se você for ver
Bem, conte sempre com as minhas fabulações
Mas fique atenta com as miragens, querida Helena
Um beijo
Ah, diz pra Júnia me esperar no Solano à noite.
Não ando bradando verdade pelos quatro ventos
Ao contrário, são coisas inventadas o que digo por aqui
Até sem carinho às vezes
Às vezes não, às vezes sim com certo desleixo inclusive
Pense em crianças brincando:
Polícia e ladrão, pique-esconde
Coisas inventadas pra passar o tempo
Melhor, pra viver a vida
Melhor, pra sentir a vida
Melhor, pra experimentá-la
Diversão!
Folia!
Pintar o sete!
É isso.
Verdade verdade mesmo não. Ou outro tipo dela.
Às vezes, como nas criações infantis, Helena
O dono da pena deixa-se ver um pouco
É um risco
Igual ao menino como menino, menino entidade
Quando machuca a perna correndo da polícia que inventava
Você sabe que acordos de fantasias começam cedo, não é?
Sei que entende isso, Helena
Assim, eu sempre soarei falso nesse grotão
Minha língua contará mais e mais ilusões
Em palavras trans-pirando inverdades
próximas do absurdo se você for ver
Bem, conte sempre com as minhas fabulações
Mas fique atenta com as miragens, querida Helena
Um beijo
Ah, diz pra Júnia me esperar no Solano à noite.
Algesia
Produzidas em série nos encombros do meu desvão
Angústia e tristeza resolveram invadir a minha casa
Nada de palmas, nada de campainha anunciativa
Romperam cerca, pularam muro, vazaram grades
E não houve disco ou filme capaz de me livrar
Nem houve incenso de alfazema, perfume de mulher
Banho, novela, poema — em soneto ou verso livre —
Café na caneca, bolinho de chuva, e-mails com flerte
Sem flerte, nem flor, nem beijo nem beija-flor
nem o barulhinho do envelope de alumínio do analgésico
nem o barulhinho efervescente do remédio na água doce
Nada foi capaz de me livrar
Tudo aqui ainda era um peito comprimido
Em larga escala produzidas nos porões da casa arruinada
Tristeza e angústia se revezavam em sentinela
A evitar fuga inflamada, a infligir corte de profundeza secular
Da largura do mar e em sentido contrário
E não houve chuva ou vento capaz de me livrar
Nem fruta no pé, massagem no pé ou pé-de-moleque
Janela, sabiá, sanhaçuíra, bolha de espumante
Cheiro de amante, nem dom Quixote nem Rocinante
Artista de cinema, Docinho de festa, passeio na praça
Nem cravo em fuga bachiana
Nem o trompete escaldante de Miles Davis
Nada tinha dom de livramento
Aqui tudo ainda era um peito abatido
Busco então em pleno desespero
uma alegria rítmica
num arremedo de samba
pruma folia descalça
pra contentar o eu-passista
numa avenida de graça
busco um ungüento, busco até um benzimento
uma pílula dentro do vencimento
drágea na validade
que sanasse logo o peito comprimido
que sarasse logo o peito combalido
que me desse fôlego, que me fosse ar
Que me deixasse respirar contentamentos
Angústia e tristeza resolveram invadir a minha casa
Nada de palmas, nada de campainha anunciativa
Romperam cerca, pularam muro, vazaram grades
E não houve disco ou filme capaz de me livrar
Nem houve incenso de alfazema, perfume de mulher
Banho, novela, poema — em soneto ou verso livre —
Café na caneca, bolinho de chuva, e-mails com flerte
Sem flerte, nem flor, nem beijo nem beija-flor
nem o barulhinho do envelope de alumínio do analgésico
nem o barulhinho efervescente do remédio na água doce
Nada foi capaz de me livrar
Tudo aqui ainda era um peito comprimido
Em larga escala produzidas nos porões da casa arruinada
Tristeza e angústia se revezavam em sentinela
A evitar fuga inflamada, a infligir corte de profundeza secular
Da largura do mar e em sentido contrário
E não houve chuva ou vento capaz de me livrar
Nem fruta no pé, massagem no pé ou pé-de-moleque
Janela, sabiá, sanhaçuíra, bolha de espumante
Cheiro de amante, nem dom Quixote nem Rocinante
Artista de cinema, Docinho de festa, passeio na praça
Nem cravo em fuga bachiana
Nem o trompete escaldante de Miles Davis
Nada tinha dom de livramento
Aqui tudo ainda era um peito abatido
Busco então em pleno desespero
uma alegria rítmica
num arremedo de samba
pruma folia descalça
pra contentar o eu-passista
numa avenida de graça
busco um ungüento, busco até um benzimento
uma pílula dentro do vencimento
drágea na validade
que sanasse logo o peito comprimido
que sarasse logo o peito combalido
que me desse fôlego, que me fosse ar
Que me deixasse respirar contentamentos
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Dedo de prosa
Não não
Não há nada de especial por aqui
Aqui são só desabafos, coisas sem importância.
Embaraço de linha em fim de carretel
Grão de soja que cai no caminho
Desperdício de vento frio no inferno
Moeda de um centavo em bolso de terno roto
Não há aqui nenhuma poesia,
Nem há pretensão de que algo aqui
Seja tomado como a mínima tentativa de lirismo.
Quem sabe um gesto, um ensaio, uma brincadeira
Balanço à sombra em tarde de verão
Um esboço, um rascunho de mim pra mim mesmo.
Pois não quero — não tenho asas —
Ter a incumbência de 'tamburilar' linguagem em
Frases repletas de arestas, saliências, torções
Retorções, curvas, intersecções, vãos e vias
Palavras côncavas, idéias convexas
Construindo casa com laje e alicerce tudo no lugar
luta de bom pedreiro
Por aqui, tudo deve permanecer revirado
imprecisa mão-de -obra barata
De maneira que seja só ficar aqui soltando palavras
Do jeito que quero e enquanto quero
Como quem vai destelhando a própria casa
E lançando as telhas pra vê-las em cacos no chão
Sem se preocupar com o sereno de hoje e nem com a chuva de amanhã
Eu quero estar aqui como quem está no prejuízo
Devendo pra amigo.
Porque aqui só há coisinhas pra amigo
Daqueles bem chegados e tolerantes
Talvez mais ainda pros delirantes
Tortos em fim de noite
Ninguém deverá delinear, portanto,
sentido literário para a minha conversa
Aqui há papinho, dedinho de prosa ensimesmado
Enmimmesmado
Porque aqui é mais fala pelos cotovelos
novelos sem fim de fala
Sala de visitas pra língua de comadre
e fim.
Enfim,
Finjo-me ser certamente, mas não sou poeta.
É claro que nem precisaria dizer
Mas como sempre há desavisados,
Digo:
De palavras, Poeta é operário.
Eu, traficante.
Não há nada de especial por aqui
Aqui são só desabafos, coisas sem importância.
Embaraço de linha em fim de carretel
Grão de soja que cai no caminho
Desperdício de vento frio no inferno
Moeda de um centavo em bolso de terno roto
Não há aqui nenhuma poesia,
Nem há pretensão de que algo aqui
Seja tomado como a mínima tentativa de lirismo.
Quem sabe um gesto, um ensaio, uma brincadeira
Balanço à sombra em tarde de verão
Um esboço, um rascunho de mim pra mim mesmo.
Pois não quero — não tenho asas —
Ter a incumbência de 'tamburilar' linguagem em
Frases repletas de arestas, saliências, torções
Retorções, curvas, intersecções, vãos e vias
Palavras côncavas, idéias convexas
Construindo casa com laje e alicerce tudo no lugar
luta de bom pedreiro
Por aqui, tudo deve permanecer revirado
imprecisa mão-de -obra barata
De maneira que seja só ficar aqui soltando palavras
Do jeito que quero e enquanto quero
Como quem vai destelhando a própria casa
E lançando as telhas pra vê-las em cacos no chão
Sem se preocupar com o sereno de hoje e nem com a chuva de amanhã
Eu quero estar aqui como quem está no prejuízo
Devendo pra amigo.
Porque aqui só há coisinhas pra amigo
Daqueles bem chegados e tolerantes
Talvez mais ainda pros delirantes
Tortos em fim de noite
Ninguém deverá delinear, portanto,
sentido literário para a minha conversa
Aqui há papinho, dedinho de prosa ensimesmado
Enmimmesmado
Porque aqui é mais fala pelos cotovelos
novelos sem fim de fala
Sala de visitas pra língua de comadre
e fim.
Enfim,
Finjo-me ser certamente, mas não sou poeta.
É claro que nem precisaria dizer
Mas como sempre há desavisados,
Digo:
De palavras, Poeta é operário.
Eu, traficante.
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