De vez em quando gosto de me despir de brasilidades
Gosto de me sentir só, cidadão de lugar nenhum
Ou mais que isso, que é apenas ser um sentidor
Só pra depois, já vazio, poder me ligar a outras terras
Outros mitos de nação que se vão além em sons e aromas.
Ato sinestésico que arremata e arrebanha pátria alheia
In substâncias incognitivamente arbitrárias
Me encantam lindezas de terras longínquas, ultramarinas.
Querer-me estar assim como em desertos paquistaneses
Desenvolto num canto mujahedin
Respirar quiçá Kinshasa
resplandecer-me de um sol enfático
e tatuar-me na pele uma cor andaluzia
luz e dia de uma ascendência arábica
E de noite, aflorar-me mais dessa península
em olores de lírios líricos e flores-de-lis lisboetas,
jardins suspensos em minha alma
onde Pessoa navega em vela camoniana
Eu, em meu coração, cultivo ibérias
É de meu feitio querer ser sem dúvida em sombra
um expatriado
em exílio nômade, de circunstância,
de brincadeira em brincadeira,
onde não há mais sentido de degredo
Querer arder Américas, Oropas e Áfricas
Ziguezaguear-me por ultramendoados olhares cotidianos de Ásias
meus olhos filmando ocasos germânicos
meus lábios povoando o gosto sazonado de Luanda
Mas há uma terra especialmente em que me fervo em pensamento
nas horas de passeio clandestino
Essa, de nome pátrio feminino, feminina
Argentina!
Não sei se é pelo nome essa atração que me completa
vestida em carnalidade
Não sei se é pela cor que a anima, branco pousado de anilina
Argentina!
Se eu fosse dela filho, haveriamos de haver num palco incestuoso
Irrevogável folia de amantes
(É minha sina ser e estar por vezes deslocado do meu ninho
Querer ser e estar em tudo nesse mundo
como se fosse e estivesse, caetaneanamente,
órfão de pátria e mátria
Onipresentemente viramundo)
Mas sobremaneira quero agora colher Argentina
Plantada em outonos borgeanos
Respirá-la, sorvê-la até em demasia
Como se não houvesse um outro dia,
Como se na manhã seguinte não houvesse o vôo da crisálida.
Anseio quedarme na infinitude portenha do tango singrando a noite
para ser corsário debelado em seu imenso mar del plata
Qual vínculo não sei,
que proximidade. Não sei qual ponte une
tal homem oxidável a tal senhora de prata
Quem sabe este azul a emprestar linhas às folhas brancas dos meus cadernos
Margeados por um rosa intruso que deveria ser amarelo solar
De un sol onde vibro por todas as Madres de Plaza de Mayo
sol de maio em azul-celeste
Argentina!
fibra de toro sem dele pedir sacrifício: Espanha remida
Não deixo lugar nenhum morrer à mingua, que dirá meus Brasis:
“— fala Mangueira!”
Mas não esqueço Buenos Aires,
Onde com Júlio brinquei de amarelinha,
E o beijo daquela mulher.
Hoje eu os quero de novo,
Eu não os perco de vista
Desde que me chegaram num cicatrizante sonido de bandoneón
domingo, 10 de junho de 2007
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2 comentários:
Então tá. Só não sei como alguém pode ser tão belo, tão verdadeiro, sem ter estado lá, ser ter pisado naquele chão. Li tudo e reli , todos, e ainda não entendi: se grande compositor que além de tudo grande poeta, ou vice-versos!!!
Adorei!!!
Ojala,puedas entender mis palabras,pero tu trabajo es fantastico,tu corazon errante me lleva a esos sitios con avidez,con ansias.
Una maravilla poeta.Enhorabuena.
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