Não não
Não há nada de especial por aqui
Aqui são só desabafos, coisas sem importância.
Embaraço de linha em fim de carretel
Grão de soja que cai no caminho
Desperdício de vento frio no inferno
Moeda de um centavo em bolso de terno roto
Não há aqui nenhuma poesia,
Nem há pretensão de que algo aqui
Seja tomado como a mínima tentativa de lirismo.
Quem sabe um gesto, um ensaio, uma brincadeira
Balanço à sombra em tarde de verão
Um esboço, um rascunho de mim pra mim mesmo.
Pois não quero — não tenho asas —
Ter a incumbência de 'tamburilar' linguagem em
Frases repletas de arestas, saliências, torções
Retorções, curvas, intersecções, vãos e vias
Palavras côncavas, idéias convexas
Construindo casa com laje e alicerce tudo no lugar
luta de bom pedreiro
Por aqui, tudo deve permanecer revirado
imprecisa mão-de -obra barata
De maneira que seja só ficar aqui soltando palavras
Do jeito que quero e enquanto quero
Como quem vai destelhando a própria casa
E lançando as telhas pra vê-las em cacos no chão
Sem se preocupar com o sereno de hoje e nem com a chuva de amanhã
Eu quero estar aqui como quem está no prejuízo
Devendo pra amigo.
Porque aqui só há coisinhas pra amigo
Daqueles bem chegados e tolerantes
Talvez mais ainda pros delirantes
Tortos em fim de noite
Ninguém deverá delinear, portanto,
sentido literário para a minha conversa
Aqui há papinho, dedinho de prosa ensimesmado
Enmimmesmado
Porque aqui é mais fala pelos cotovelos
novelos sem fim de fala
Sala de visitas pra língua de comadre
e fim.
Enfim,
Finjo-me ser certamente, mas não sou poeta.
É claro que nem precisaria dizer
Mas como sempre há desavisados,
Digo:
De palavras, Poeta é operário.
Eu, traficante.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
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