A UM POETA
Ele é poeta?
Abra as janelas pra ele.
Saia na janela e veja-o dançar, na sua solidão diuturna e
remanescente.
Dê ouvidos as suas reminiscências.
Observe-o nem que seja enquanto tu escovas os dentes.
Nem peço para que ofereças café ou uma cachacinha em final
de tarde perpendicular,
Nem uma piscadela eu ando a te pedir para o poeta.
Quem sabe um olhar de soslaio, reprimido mesmo
Um sorriso minguado e fugidio
Mas que não seja mentiroso,
Ainda que oculte verdades
Dê ao poeta, quem sabe
Uma sístole ou meia diástole do seu dia programático
Uma cena da sua novela preferida
O suor do seu copo de cerveja, que seja, que seja.
Uma página rasgada da revista Veja
Ou seja: o poeta quer migalhas sim.
O poeta quer uns trocados sim,
Aceita pão amanhecido
Agradece o sapato velho de número menor
Se encanta com a roupa surrada e sem botões
A velha história do incontível?
E a história do incabível?
O que cabe dentro da lata?
As raspas de leite condensado que o poeta lambe
O poeta se delicia com o caroço da azeitona
Nenhum comentário:
Postar um comentário